ARCOS DE VALDEVEZ
Arcos de Valdevez, é um dos concelhos do interior do Alto Minho que fez história em Portugal. Á sombra do "Paço de Giela", a vila recorda-nos o ponto de partida da nossa emancipação, e, remirando-se no Rio Vez que corre ao lado, sente a truta saltar no Ázere e esconde-se muda de espanto com tanta beleza.
É Arcos de Valdevez e o seu torneio !… Segundo reza a tradição, foi aqui que se encontraram as tropas de Afonso VII de Leão e de D. Afonso Henriques, em 1140.
Não se sabe ainda, ao certo, se este foi um simples torneio entre cavaleiros, ou se se tratou mesmo de uma grande batalha. Porém, diz-se que a luta entre os dois exércitos assumiu tal carnificina, que durante algumas horas depois do combate, ainda o Rio Vez levava, até ao Rio Lima, sangue em vez de água. Daí, o chamar-se, ainda hoje, a "Veiga da Matança"!
Seguimos depois o rio até à entrada da vila, cujas duas freguesias que a compõe, S. Salvador, na margem direita do rio, e S. Paio, na margem esquerda, são unidas por uma nova ponte.
Aquém rio, deixamos a Matriz (séc. XVII) com escadório, a Casa da Andorinha (séc. XVII) com torre e varanda de colunas jónicas, a interessante Casa da Ponte (séc. XVIII), o Cruzeiro do Senhor dos Milagres em estilo neoclássico (séc. XIX), a velha ponte medieval (séc. XVIII), substituída em 1876 por uma mais ampla com quatro arcos de volta redonda e talhamares.
Mais ao fundo, e já na curva do rio, a Casa do Requeijo, um solar típico minhoto (séc. XVIII) com duas torres e fachada nobre no sentido horizontal, um balcão com grades de ferro para o qual abrem nove janelas, mesmo ao lado da capela de decoração "rocaille" (séc. XVIII).
Percorrendo depois a alameda e o jardim à "beira rio", encontramo-nos no então campo da feira local, desde os anos de 1456, actual centro turístico dos Arcos de Valdevez. Antigo Campo do Trasladário, tem-no a valorizar as águas livres e despreocupadas do Rio Vez, no remanso rendilhado do açude, entre copas altas de arvoredo, terras de pão e de vinho, écloga macia a recordar os velhos tempos medievais, o cantar da serra e os segredo dos contrastes da paisagem.
Não podemos no entanto esquecer que Arcos de Valdevez e o seu concelho tem mais para descobrir, para nos oferecer. E, apenas como exemplo, fica a sugestão de um passeio em plena serra, já na área do Parque Nacional da Peneda-Gerês, onde encontraremos Soajo, uma peculiar aldeia com os seus espigueiros, lembrando-nos tempos de vida comunitária.
A relação histórica entre a ocupação humana dos espaços e a organização natural dos mesmos assume no caso do vale do rio Vez um papel de primordial importância. As múltiplas áreas de regadio e de terrenos férteis proporcionados pelo rio e seus afluentes e a existência de amplos anfiteatros naturais, opondo zonas de serra e de planície, favoreceu desde muito cedo o estabelecimento de comunidades humanas.
Da pré-história chega-nos um legado de evidente importância. O número de monumentos funerários provenientes do período neolítico ( cerca de 2500 anos antes de Cristo) comunemente designados por "mamoas" e "antas", é de cerca de uma centena, destacando-se pela sua importância o núcleo megalítico do Mezio, recentemente alvo de estudo e valorização. De igual modo relevante, quer pela sua importância patrimonial quer pela cientifica, é a estação de arte rupestre do Gião, formada por um conjunto de cerca de 100 rochas gravadas com diversos motivos esquemáticos, incluídos num fantástico anfiteatro natural, representando um vasto local de reflexão ritual para as comunidades humanas que as realizaram há cerca de 3500 anos.
O período proto-histórico e de ocupação romana revela vestígios diversos, não só na toponímia local, mas sobretudo na quantidade significativa de recintos defensivos e habitacionais, os "castros", existentes por todo o concelho, e onde os casos de Ázere, Álvora e Cendufe serão, provavelmente, os mais conhecidos.
A Idade Média trás consigo uma organização do território e do espaço que será também ela um reflexo das condicionantes naturais e da geografia. A distribuição das paróquias medievais e dos primeiros mosteiros aproveita os recursos das áreas planalticas e de monte, como os casos exemplares dos mosteiros de Ermelo (cisterciense) e Santa Maria de Miranda (de base beneditina). As áreas de serrania facilitaram a fixação das populações baseadas essencialmente numa tradição de pastorícia e de uso sazonal, recuperada pelas actuais "brandas" e "inverneiras".
A montanha favoreceu o desenvolvimento de recursos naturais abundantes, sobretudo de caça diversa, que juntamente com a sua posição estratégica de fronteira, cedo impeliram os primeiros monarcas nacionais a visitar e a incentivar a fixação de populações nessas zonas. Espelho da importância como via de comunicação natural entre o Norte do pais e a vizinha Galiza, é o numero significativo de pontes de origem medieval, representadas, entre outras, em exemplares únicos como os de Vilela e Cabreiro.
A sua posição estratégica natural destacou as terras de Valdevez como lugar primordial de organização militar e social, atestada já em documentação dos Séculos X e XI. Apesar de abandonado em meados do Século XIII, o castelo de Santa Cruz, em Vila Fonche, sobranceiro à actual vila, foi um dos primeiros elementos de suporte à fixação humana nesta zona precisa, solidificada pela fácil comunicação das diferentes vias que confluíam na ponte medieval do rio Vez, e favorecendo, deste modo, o desenvolvimento de um polo urbano dinâmico e fundamental, que já em 1258 controlava uma mancha geográfica próxima da do actual concelho de Arcos de Valdevez. A importância de toda esta área como vector de evidente desenvolvimento leva D. Manuel I a conceder foral à vila em 1515.
A reforma liberal oitocentista viria a traçar os limites definitivos do actual concelho, com a introdução das áreas de Soajo, Ermelo e Gavieira.