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PONTE DA BARCA

É incontestável que as terras que hoje fazem parte do concelho de Ponte da Barca foram desde longa data ocupadas pelo homem, como o provam os numerosos e, nalguns casos, ainda bem conservados monumentos megalíticos da região, e os restos de povoações fortificadas ou castros, que ainda hoje coroam alguns dos seus belos montes.

À semelhança da maioria das outras terras medievais, a da Nóbrega tem origens muito remotas e devia corresponder a uma circunscrição territorial pré-romana, habitada desde os tempos pré-históricos, como se comprova pelos achados arqueológicos e pela toponímica local.

Dos tempos mais recuados existem dólmenes, um deles em perfeito estado de conservação na freguesia de Britelo, os topónimos Antas e Arcas e as gravuras rupestres descobertas por uma equipa de arqueólogos do Parque Nacional da Peneda-Gerês, em 1979, junto do lugar de Parada da freguesia de Lindoso.

Uma estátua mutilada de um general galaico-romano, documenta a Idade do Ferro. Esta estátua foi levada da freguesia de Britelo para o Museu Soares dos Reis, no Porto. Para este museu foi levada também a Pedra dos Namorados, encontrada na freguesia da Ermida. No núcleo museológico desta mesma freguesia guarda-se outro monumento pré-histórico encontrado em 1891 - a estátua menhir da Ermida.

Mais recentemente foi descoberto pela equipa da Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, na franja ocidental da Serra Amarela, um núcleo de dólmenes e mamoas, algumas das quais conservam ainda no seu interior algumas gravuras e restos de pinturas rupestres a ocre vermelho.
A toponímia vem em apoio dos achados arqueológicos com os nomes castro, castelo e seus derivados e sobretudo com a palavra Nóbrega, de origem celta.

Grovelas é o nome de uma freguesia do concelho de Ponte da Barca, que recorda a tribo dos gróvios, originários dos celtas, que foram um dos povos que habitaram o vale do Lima antes da vinda dos romanos.

Da ocupação romana existe uma ara dedicada a Hércules, descoberta na freguesia de Lindoso, ao restaurar-se a igreja paroquial. No sítio da Barbeira, na freguesia de Touvedo (Salvador), no interior de uma casa romana, encontraram-se uma mó manual de moinho, presentemente espólio do Museu D. Diogo de Sousa, em Braga, e vários fragmentos de cerâmica, entre os quais a parte inferior de uma taça, classificada como sendo da segunda metade do século I ou século II, da oficina do oleiro Semprónio (segundo a inscrição nela gravada), pelo arqueólogo e professor da Universidade de Coimbra, Jorge Alarcão. Ainda desta época foi encontrada uma tampa sepulcral com duas esculturas humanas e inscrição latina, que agora se encontra na casa da Pousada da freguesia de S. Tomé do Vade.

O topónimo Cidadelhe (diminutivo de cividade), na freguesia de Lindoso, testemunha também a ocupação romana, como aliás o topómimo Lindoso, que deriva de Limitosum (limes-itis) e não de lindo como fantasiosamente por vezes se afirma.

Britelo, Germil e Vade são topónimos de origem germânica que representam a Alta Idade Média, sendo anteriores à invasão muçulmana dos princípios do século VIII.

Além disso, é provável que o topónimo Nóbrega, antigamente Annofrica, correspondesse a Annofrice, uma das trinta grandes paróquias ou circunscrições eclesiásticas, em que a diocese de Braga foi dividida no concílio do ano de 569.

Ponte da Barca, antigamente, apenas se chamava Barca, nome que lhe veio da barca de travessia do rio. Esta obrigou a construir a casa do barqueiro, levantando-se depois outras para os que se dedicavam ao tráfego fluvial e para acolher os transeuntes, sobretudo os peregrinos de Santiago de Compostela.

Com a reconstrução da primitiva ponte sobre o rio Lima, em meados do século XIV, este lugar passou a chamar-se Ponte da Barca.

Ponte da Barca, já no tempo da nacionalidade era terra de importância material e de categoria política. Daí que o facto de ter sido sede da corte portuguesa durante cerca de um mês, no ano de 1386, quando seguia ao encontro do Duque de Lencastre, pretendente ao trono de Castela, a fim de ambos assinarem em Ponte do Mouro um tratado. Durante o mês de Outubro desse ano, o rei D. João I estacionou em Ponte da Barca com numerosa comitiva militar e vários funcionários de chancelaria.

Por esta altura deu-se um acontecimento histórico, talvez o mais significativo para a vila. Na comitiva do rei encontrava-se D. João, bispo de Dax, em França e núncio do Papa Urbano VI, personagem notável da época. Este núncio apostólico passou em Ponte da Barca a 14 de Outubro de 1386 um documento em favor de Frei Fernando de Astorga, confessor do rei de Portugal, e do franciscano Frei Afonso de Montemor, autorizando-os a absolver todos os que, de qualquer modo, ajudassem o Duque de Lencastre a combater D. João Henriques, usurpador dos reinos de Castela e Leão, cismático e fundador de cisma. Todos os que o combatessem gozavam dos privilégios concedidos aos cruzados da Terra Santa.

O original deste documento ainda se conserva entre os documentos da Ordem de Avis, na Torre do Tombo.

Também em 1502, vindo de Santiago de Compostela, aqui se hospedou o rei D. Manuel I, na Casa de Maria Lopes da Costa, senhora a quem o pequeno burgo devia muito da sua prosperidade. Porque esta pequena povoação - a Barca - se encontrava localizada em lugar estratégico, facilitador de viagens e transportes adequados à época, prosperou a tal ponto que a vila de então se transfor-mou, administrativamente, em sede de concelho. E haveria de ser de D. Manuel I - que ofereceu uma riquíssima cruz processional à igreja matriz da vila - a consubstanciar em carta de foral, outorgada em 24 de Outubro de 1513, os direitos e deveres da Terra da Nóbrega.

A Terra da Nóbrega, hoje concelho de Ponte da Barca, era uma das muitas circunscrições territoriais em que o país estava dividido para fins administrativos, judiciais e militares, delimitadas quase sempre por acidentes geográficos.

O nome veio-lhe do altaneiro castro que lhe servia de reduto defensivo e que ficava no maciço rochoso de cota 775, sobranceiro ao lugar de Ventuzelo, na freguesia de Sampriz, actualmente chamado Castelo de S. Miguel-o-Anjo.

Este castro tem a primitiva referência fidedigna no inventário dos bens do Mosteiro de Guimarães do ano de 1059, que relativamente a este concelho diz o seguinte: " No sopé do Castro da Nóbrega a vila de Souto, na margem do Vade, com todas as suas pertenças; toda a vila de Cendão; toda a vila de Vilar; e, na Portela do Vade, toda a vila chamada da Portela com seus limites; toda a vila de Covas. E de vila de S. Pedro (do Vade) e de Oleiros toda a sexta parte e, além disso, estas vilas com os seus tributos, como consta das cartas e do testamento". Do documento se conclui que em 1059 já existiam na Nóbrega as freguesias de Covas, S. Pedro do Vade e Oleiros, e outras povoações.

Segundo o Censual de Braga de 1085, a Terra da Nóbrega englobava 31 freguesias, todas elas situadas a norte da serra do Oural, divisória natural das bacias hidrográficas dos rios Lima e Homem.
Esta delimitação está confirmada pela divisão dos arcediagos da diocese de Braga em 1145, pelas Inquirições de 1220, 1258 e 1290, entre outros documentos, mantendo-se com pequenas alterações até às reformas administrativas realizadas entre 1835 e 1855, data em que o nome de Terra da Nóbrega já tinha sido substituído pelo de concelho de Ponte da Barca.

Seis freguesias foram tiradas a este concelho pelas referidas reformas: Aboim da Nóbrega, Covas, Codeceda, Valões, Penescais e Gondomar, incorporadas no concelho vizinho de Vila Verde, deixando por isso de pertencer ao distrito de Viana do Castelo para pertencer ao de Braga.

Segundo as Inquirições de 1220, Ourigo Ourigues, "o velho", bisavô de D. João de Aboim, levantou ou reconstruíu ali um castelo, tendo recebido de D. Afonso Henriques, como recompensa, dois casais em Paço Vedro, chamados de Penelas.

Apesar de ter sido construído num enorme e quase inacessível penhasco, não devem restar dúvidas quanto à sua edificação nesse local, pois a ele existem várias referências no numeramento da população em 1527, feito em Ponte da Barca e que regista que o castelo da Nóbrega ficava situado "huma fragna, ermo e quase no meio do concelho".

Já em ruínas, o castelo ainda foi ocupado a 3 de Agosto de 1662 pelo general espanhol Pantoja, para dali mandar as suas tropas atacar Ponte da Barca e Braga e tomar o castelo de Lindoso.

As 25 freguesias do concelho de Ponte da Barca estendem-se ao longo de uma área total que ronda os 18.500 hectares. São elas: Azias, Boivães, Bravães, Britelo, Crasto, Cuide de Vila Verde, Entre-Ambos-os-Rios, Ermida, Germil, Grovelas, Lavradas, Lindoso, Nogueira, Oleiros, Paço Vedro de Magalhães, Ponte da Barca, Ruivos, Sampriz, Touvedo (Salvador), Touvedo (S. Lourenço), Vade (S. Pedro), Vade (S. Tomé), Vila Chã (S. Tiago), Vila Chã (S. João Baptista) e Vila Nova de Muia.
A população do concelho, segundo os Censos de 1991, é de 13.142 habitantes, correspondendo a 6.310 fogos.

O património monumental do concelho é de grande riqueza. Em Ponte da Barca, a ponte tem um lugar relevante por se tratar de uma das importantes pontes medievais do país, da primeira metade do séc. XV. Com cerca de 200 metros de comprido conta dez arcos de bom diâmetro, de tamanhos variados - ora arcos de volta inteira, ora arcos apontados. Pensa-se que a sua construção foi levada a cabo durante a regência de D. Pedro, o infante morto em Alfarrobeira. Recebeu reparações em 1761 (durante a superintendência de João de Almada, parente de Pombal), e em 1891, conforme se lê nas lápidas apostas à meia laranja que se abre ao centro do tabuleiro.

A matriz, dedicada a S. João Baptista, foi traçada pelo conhecido engenheiro e arquitecto Manuel Pinto de Vilalobos, de Viana do Castelo. Foi construída entre 1717 e 1738, depois de demolida a antiga igreja matriz, do século XVI, que ameaçava ruína.

A Igreja da Misericórdia é um templo de uma nave, reconstruído entre 1822 e 1844, que no entanto apresenta uma fachada rocócó da segunda metade do século XVIII, atravessada embora por uma varanda neoclássica.

A Capela de Nossa Senhora da Lapa remonta ao século XVII, tendo sofrido várias obras no interior, no decurso do século XVIII. Na fachada, a pedra de armas dos Magalhães e Menezes evoca a família padroeira.

A Capela de S. Bartolomeu é uma pequena construção da segunda metade do século XVII, tal como a Capela de Santo António, esta com retábulo do entalhador Frutuoso de Azevedo, de Braga, feito em 1695.

O Pelourinho, talvez dos fins do século XVI, suportou já diversas alterações. A sua coluna, cilíndrica, emerge de dois degraus e termina numa esfera. Sobre esta levanta-se uma pirâmide do séc. XVIII, que por certo substituiu desaparecidos elementos quinhentistas.

Os Paços do Concelho patenteiam uma arquitectura sóbria e tradicional do terceiro quartel do século XVIII. No piso inferior da fachada nobre recorta-se, em cada extremidade, uma arcada de quatro arcos de volta inteira, para abrigo e recepção. Em cima, no segundo piso, correm doze janelas gradeadas, destacando-se ao centro as armas reais, esculpidas em pedra.

O Antigo Mercado está em frente ao pelourinho e perto do início da ponte. O conjunto dos três monumentos dá muito carácter ao lugar. O chamado "antigo mercado" erguido em 1752 constitui uma espécie de grande alpendre, cuja utilização se alugava aos feirantes. Trata-se de uma construção interessante e original, bastante divulgada pelo seu ineditismo.

Como casas nobres de Ponte da Barca, merecem referência a Casa de Farias, pertencente hoje aos Brandões de Melo; a Casa de Santo António, da segunda metade de setecentos, com capela privativa, da época do solar (actualmente Centro Cultural Frei Agostinho da Cruz, e Diogo Bernardes); a Casa da Rua de S. Bartolomeu, também da segunda metade do século XVIII; a Casa dos Lacerdas; a Casa da Fonte Velha; a Casa de Maria Lopes da Costa, situada ao lado do antigo mercado; as casas da Prova de Baixo e da Prova de Cima, que pertenceram à família dos Pimentas.

Pelas freguesias do concelho são de citar, em Bravães a igreja matriz, a igreja românica mais interessante da Ribeira Lima; em Lindoso, o castelo, uma construção dos princípios do século XIII, a dois quilómetros da fronteira, mas cujos principais combates que testemunhou terão ocorrido na segunda metade do século XVII, durante a guerra da Restauração (diz-se que D. Dinis mandou melhorar e ampliar o castelo e que, impressionado pela sua beleza, lhe chamou Lindoso, uma versão fantasiosa, já que o topónimo é muito mais antigo).

De citar, também, em Lindoso, os espigueiros junto ao castelo. O largo dos espigueiros constituem o segundo monumento da freguesia já que aí se encontram mais de meia centena de espigueiros dos séculos XVIIII e XIX, num aglomerado de rara beleza e único no País. Inteiramente em pedra, cada exemplar apoia-se em vários pilares, curtos, assentes na rocha e encimados por mós ou mesas. Sobre elas repousa o canastro, formado de balaústres entre si separados por fendas de ventilação. Como cobertura, duas lajes de granito unidas em ângulo obtuso, ornamentadas nos vértices por cruzes protectoras; em Magalhães, a casa de "Paço Vedro", solar da segunda metade do século XVIII, dos Abreus Limas; em Nogueira, as casas da Quintela e da Agrela; em S. Martinho de Crasto, a igreja matriz, templo românico dos fins do século XII, de um antigo mosteiro dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho; em Vila Nova de Muia, também a igreja matriz, antiga igreja de um mosteiro da mesma ordem, onde aprenderam as primeiras letras os poetas irmãos Diogo Bernardes e frei Agostinho da Cruz.

Não são raros no concelho os sítios ou lugares a merecer visita obrigatória. A poucos quilómetros da vila, na margem oposta do Lima, aninhada junto ao rio, a povoação de Ermelo, com as suas casas negras agrupadas em volta do antigo mosteiro românico dos monges beneditinos. Cabril, Lindoso, Chão da Fonte, Côto do Muro, as margens do Lima, o monte de Santa Rita, a Pegadinha e o miradouro do Livramento.

 
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