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TERRA DAS BIENAIS DE ARTE

Vila Nova de Cerveira voltada para o turismo com a Pousada de D. Dinis, o ferry-boat que liga a Goyan (Espanha), o Monte de Nossa Senhora da Encarnação e o Convento de S. Paio, dos Milagres, cenóbio de frades, hoje, centro de artistas e casa de eleição do escultor José Rodrigues.

Vila Nova de Cerveira, ou simplesmente Cerveira como originalmente se chamou, situa-se na margem esquerda do Minho, ali onde já o curso do rio se avizinha do alargamento que vai constituir-lhe estuário.

História

Como as demais povoações nascidas em posição estratégica de defesa daquela fronteira setentrional, Cerveira foi desde cedo uma povoação fortificada. Divergem porém as opiniões dos estudiosos quanto à natureza e mesmo quanto à época de fundação de suas primeiras fortificações: uma torre apenas, e mandada construir por D. Afonso III, para prevenir novos ataques leoneses, como os de 1212, destruidores dos castelos de Valência e de Melgaço, opinião de Luís Figueiredo da Guerra, ou já um castelo, e em 1229 ou antes, como opinou, fundado numa das subscrições do foral de Elvas, Costa Veiga.

A única afirmação segura é a de que, reinando D. Sancho II, havia um magnate chamado Pedro Novais que figurou entre os confirmantes daquele foral como alcaide do castelo de Cerveira: "Domnus Petrus Novaes tenens castellum de Cerveira. Deverá, porém, ser-se obrigado a tomar à letra a denominação de castelo, como edificação casteleira completa e assim propriamente dita?

De qualquer forma, já no começo do reinado de D. Afonso III, como consta das Inquirições de 1258, era encargo dos moradores de Cerveira e freguesias próximas a anúduva, isto é, o fornecimento de materiais e a prestação de trabalho, quando convenientes a alguma reparação das edificações casteleiras.

Quanto ao tempo de D. Dinis, documentalmente se sabe que em 1320 tratava o monarca de alargar o povoamento de Cerveira, instalando junto da pré existente povoação um núcleo de novos povoadores, para cujo assento instituía um certo número de casais, trocando pelos ai de posse privada outros possuídos pela já Coroa no julgado de Val de Vez, diligência à qual acrescentou, no ano seguinte, a outorga duma carta de foral, tornando Cerveira vila com as regalias anteriormente concedidas a Caminha. A estas decisões se referiu o cronista Rui de Pina, acrescentando-lhes uma referência ao melhoramento e ampliação das fortificações, no que se mostrou de acordo com a tradição de ser dionisíaca a muralha de defesa da povoação, pois mencionou Vila Nova de Cerveira entre as localidades que esse monarca, Povoou, de novo e fez castelos.

Sem efemérides que deixassem sulco na história até fins do século XIV, o castelo de Cerveira esteve sem duvida atento à guarda do próximo vau, para cuja defesa certamente fora erigido; mas ao abrir-se, em 1383, por morte de D. Fernando, a crise dinástica que em muitas terras subalternizou o patriotismo ao cego respeito da legalidade, Cerveira, sob mando do seu alcaide, tomou o partido do monarca castelhano João I, que como marido da herdeira do trono, a infanta D. Beatriz, se opunha a patriótica revolução que, chefiada pelo Mestre de Avis, D. João, defendia a autonomia nacional.

Não durou porém muito essa situação, pois na Primavera de 1385, quando o Condestável, tendo conquistado o castelo de Neiva, fazia caminho para Santiago, em cumprimento duma promessa de romaria, os homens bons de Cerveira, isto é, os principais moradores da vila, temendo que ele a fosse atacar, mandaram-lhe dizer "que o não fizesse, pois eles Portugueses eram, e queriam ser servidores de el-rei e do Reino", em vista do que Nuno Álvares enviou ali gente sua que ergueu em Cerveira, como em outras terras da região por igual forma rendidas, ao pendão português, do já rei de Portugal, D. João I.

Quase decorridos três séculos, uma outra grande crise nacional, a da Restauração, pôs à prova o patriotismo dos moradores de Cerveira, pois em 1643, assediada a vila por forças espanholas invasoras, ela lhes resistiu valorosamente forçando-as a desistirem do intento, tal como veio a suceder em 1809 ao exercito francês do general Soult, visto que a guarnição e as gentes de Cerveira lhe impediram a tentada transposição do rio.

Do velho castelo, bem como de um muralhamento que os sucessos da Restauração aconselharam se desse ao já existente crescimento da vila, só restam pedras de muralhas e de torres, tendo mesmo desaparecido já a que foi chamada Torre dos Mouros, talvez primitiva torre de menagem. Existem, porém, íntegras algumas portas, tais como a de acesso ao castelo e a de recurso, habitualmente denominada porta da traição, ambas de tipo ogival correspondente à época da construção, vendo-se sobre o fecho daquela um vetusto escudo nacional, que ali perdura como um símbolo, em recordação da honrosa história de Cerveira.

Era uma vez … um cervo (veado), que os Deuses do Olimpo quiseram que fosse Rei. Escolheu estas terras outrora desabitadas do "bicho" homem e aqui prantou sua colónia de cervos de tal modo que nas redondezas toda a gente passou a chamar a estes lugares "terras de cervaria".

Muitos anos correram. Lutas e refregas, calamidades que foram dizimando a colónia, até que ficou só o Rei Cervo.

Diz a lenda que na Reconquista quando os Senhores de pendão e caldeira desceram dos cerros asturianos à conquista do que seria mais tarde o "Condado Portucalense", um jovem fidalgo desafiou o Rei Cervo para uma luta frente e frente.

E o velho senhor aceitou. A luta seria travada entre arvoredos e ervas daninhas e num local onde existiam pequenas valas no lugar de Valinha (Cornes ?).

E sem apelo nem agravo conta-nos a "estória", o Rei Cervo venceu !

Ficou com o pendão do fidalgo e, a partir daí, seu brasão de armas foi a bandeira conquistada.

Mas os Deuses enganaram o velho Rei. Ele não seria imortal …

Cansado da vida, doente, na solidão das fragas, o velho Senhor morreu. E com ele desapareceu para sempre a "Terra da Cervaria" (…).

Ainda hoje e para que a "estória" se não perdesse, as "armas" de Vila Nova de Cerveira têm um cervo em campo verde, passante de ouro, armado de prata, contendo entre as hastes um escudete de azul carregado de cinco besantes de prata. E, também, no cimo dos montes deste Município mandou construir "in memoriam" o Rei Cervo, que numa notável escultura em ferro, de José Rodrigues, atesta a longevidade das "Terras de Cervaria".

Deixamos já o velho convento franciscano de S. Paio, fundado em 1392 por Frei Gonçalo Marinho.

E por uma estrada florestal vamos até Covas, parando junto à Igreja Matriz.

Próximo, temos a Casa de Carboal do último quartel do século XVII, propriedade vinculada e instituída em morgado no ano de 1691, por Manuel Pereira Bacelar, um dos Governadores da Praça de Vila Nova de Cerveira.

Já a descer e com rumo à vila, dirigimo-nos, primeiro a Sopo de Cima, depois a Sopo de Baixo. Próximo da igreja, o Cruzeiro da Senhora da Piedade, trabalho do canteiro de Sopo, Manuel Igreja (séc. XVIII). E passamos por France onde Pedro Homem de Mello encontrou a dança mais difícil de todas as danças de Portugal: a "francesa", uma "gota" que o Nelson de Covas lhe ensinou e que regista dizendo que bailavam-na dois grandes dançadores: o Leandro e o Patego e duas dançadeiras, uma delas a Artemisa …  
O tocador dava pelo nome de Benigno.

A "gota", que apelidou de Gondarém, três figuras base a tornam única dentro das "gotas" do Alto Minho: o "meio passo", o "revirado" e "cada qual leva a sua". Dança coreográfica por excelência, com um ritmo que é o próprio balanço dos corpos, com um "estribilho" e "marcas" de extraordinária beleza, na "francesa" os braços, é o ar que os sustem: os pés, esses passam leves sobre o solo, que nem lhes foge, nem os retém.

Para trás, ficam-nos os Montes de Goios, o Calvário, Gondarém.

Depois Loivo, outrora convento de monjas beneditinas - Santa Marinha - já com uma marcada vocação turística, mesmo às portas de Vila Nova de Cerveira.

Ao fundo, na Ribeira, as ilhas dos Amores e da Boega, a Murraceira. Seguimos agora pelo Solar dos Castros até à Pousada de D. Dinis, à praça central. Vila Nova de Cerveira - airosa, fresca e renovada. Entramos na secular Matriz, e curvamo-nos perante um colossal São Cristóvão !